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Por que traduções literais em sala de aula?

Quando falamos de tradução literal, pensamos em uma tradução despida de pretensões estéticas e que estaria muito colada ao texto original, colada a ponto de ser a mais fiel de todas. O curioso é que, apesar da tradução literal sonhar em ser a coisa mais transparente do mundo, seu conceito por si só não é a coisa mais transparente do mundo. Afinal de contas, saber o que seria o sentido básico de um texto é algo que dá muito pano pra manga, ainda mais quando falamos de textos literários que se constroem a partir de muitas camadas de sentido. Quero, hoje, apresentar minha visão do que é a tradução literal e do porquê ela é útil em sala de aula.



Comecemos direto no olho do furacão. Tradução literal não é sinônimo de tradução fidelíssima ou, pior ainda, de uma espécie de régua a partir da qual as demais traduções devem ser avaliadas. Essa visão, que parece reproduzir a lógica dos casos retos e oblíquos das gramáticas antigas para o campo da tradução, falha ao perceber que a tradução literal é, no máximo, um jeito especialmente clara e transparente de mostrar a maneira como analisamos certos aspectos do texto, em específicos aspectos gramaticais de ordem lexical, morfológica e sintática.


Muitas vezes, ela o faz a partir de um decalque em cima do texto original que não tem pretensão nenhuma de passar aquilo de um jeito bonitinho ou minimamente aceitável em português. Alguns modelos de tradução literal optam por versões extensas de um texto, cheias de reviravoltas para traduzir uma única palavra, enquanto outras, muito adotadas em trabalhos de análise linguística, são simplesmente uma junção de informações a nível morfológico e sintático. Por exemplo:


Siquis in hoc artem populo non novit amandi,

Hoc legat et lecto carmine doctus amet.


É a abertura de A arte de amar de Ovídio na edição de Mozley e Goold (via PHI). O primeiro tipo de tradução literal, a que costuma ser usada em sala de aula, poderia dizer: "se alguém no meio deste povo não aprendeu a arte de amar, ordeno que leia isto e, depois do poema ter sido lido, ordeno que ame na condição de conhecedor". Veja que optei por espichar o tamanho da preposição, dos subjuntivos "legat" e "amet", do ablativo absoluto "lecto carmine" e do aposto "doctus", tentando mostrar de modo mais claro qual é a leitura que faço desses elementos no texto. A segunda forma de tradução literal, logo abaixo, poderia ser acompanhada de uma árvore sintática enxuta representando a posição de base dos constituintes e desdobrando um sintagma flexional apenas para encaixar o ablativo absoluto:


[Se-alguém]NP-Nom. [em este](1)PP-Abl. [arte](2)NP-Ac. [povo](1)PP-Abl. [não]NegP. [aprendeu]VP-Perf.Ind. [de-amar](2)GerP.-Gen.

[Isto]NP-Ac. [ordeno-que-leia]VP-Pres.Subj.

[e]CoordP.

[tendo-sido-lido-o-poema]SC-Abl.Abs. [condição-de-conhecedor]NP-Nom. [ordeno-que-ame]VP-Pres.Subj.



A tradução agora explicita também a análise morfossintática e vira uma coisa ilegível em português. Um leitor que não saiba latim simplesmente não dará conta de entender a tradução. Ela se tornou ferramenta de apoio para uma análise linguística. De fato, muitas vezes a tradução literal não tem o intuito de fornecer algo pensando no grande público, nas pessoas que não conhecem aquele idioma, mas, pelo contrário, serve como ferramenta indispensável para uma leitura mais aprofundada sobre tais e tais aspectos de um texto, voltadas a quem já consiga fazer sentido do original.


Ora: como a tradução literal muitas vezes não dá a mínima para o quão legível aquilo ficará em português, então ela talvez não seja nem mesmo tradução, na medida em que, no limite, não cumpre um requisito fundamental de toda tradução: o poder ser lida e apreciada por quem não conhece o idioma original. Justamente por isso é estranha a ideia de que ela seria a tradução mais fiel. Fiel pra quem, cara pálida? Pra quem já sabe o original?


É também importante observar que, embora a tradução literal se volte a aspectos lexicais, morfológicos e sintáticos de um texto, isso não significa que ela tenha esgotado tudo que um texto tem a dizer. A própria noção de que traduções precisam traduzir tudo é uma ideia vaga e muito pouco útil, já que ninguém que sai por aí propagando essa ideia mirabolante se preocupa em pelo menos esclarecer o que exatamente seria tudo em um texto qualquer. E se ninguém consegue apontar o que é tudo em um texto, por que exigir que o tradutor passe tudo? Além disso, por trás das loas exageradas às traduções literais parece existir a ideia de que obras literárias são uma espécie de biscoito chinês em que uma mensagem essencial é envolta em camadas supérfluas de sentido. É uma ideia estranha, mas que é muito corrente na cabeça dos leitores comuns e até mesmo de muitos classicistas.


A palavra no texto artístico se assemelha a um prego batido numa resma de papel. O que quero dizer com essa comparação inusitada é que ela pertence, simultaneamente, a muitas camadas de sentido, não apenas lexicais, morfológicas ou sintáticas, mas também sonoras e alusivas, por exemplo. No soneto "Legado", de Drummond, publicado em Claro enigma, de 51, o verbo "havia" no fim do poema é mais do que as acepções de um verbete ou sua posição estratégia num quadro de conjugação verbal:


Que lembrança darei ao país que me deu

tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?

Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu

minha incerta medalha, e a meu nome se ri.


E mereço esperar mais do que os outros, eu?

Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.

Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,

a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.


Não deixarei de mim nenhum canto radioso,

uma voz matinal palpitando na bruma

e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.


De tudo quanto foi meu passo caprichoso

na vida, restará, pois o resto se esfuma,

uma pedra que havia em meio do caminho.


Na verdade, a escolha do verbo é fundamental para dar conta do funcionamento métrico do tipo de verso usado no soneto, um alexandrino francês. Sistematizado em meados do século XIX e muito adotado pelos parnasianos, ele é muito provavelmente o verso mais difícil da versificação em língua portuguesa, a começar pelo fato de que emprega regras de composição tomadas de empréstimo do francês, uma língua com características fonológicas muito distintas da nossa.


Além disso, o verbo também faz menção explícita a um dos poemas mais famosos de Drummond, "No meio do caminho", que começa com uma frase que se tornou provérbio popular: "Tinha uma pedra no meio do caminho". Drummond foi muito criticado por esse poema de recorte estranho e incômodo. Ele próprio chegou a reunir muitas dessas críticas num livro intitulado Biografia de um poema. O setor mais enferrujado do pensamento gramatical da época despejou toda sua bile sobre a escolha de "tinha" com valor existencial, quando o correto, para a norma-padrão, seria justamente o "havia" de décadas depois.


Ora: a concessão feita a essa filigrana gramatical em um soneto que indaga qual a contribuição de sua poesia para um país "na noite do sem-fim" é de uma ironia mordaz. Drummond, o poeta que, anos atrás, em A rosa do povo, todo dia fabricava um elefante feito de "flores de pano / e nuvens, alusões / a um mundo mais poético / onde o amor reagrupa / as formas naturais", agora, com voz amarga, constata que não deixará "nenhum canto radioso, / uma voz matinal palpitando na bruma". A única contribuição é uma pedra no meio do caminho - a pedra de alguém que pelo menos tentou mudar um mundo que não tem mais jeito, ou simplesmente uma contribuição ínfima, uma polêmica vazia que parece ter sido tudo o que nó leitores aprendemos com sua poesia.


Veja, pois, que, no soneto, a palavra "havia" não é apenas um cruzamento de informações gramaticais. Uma tradução literal inglesa que chegasse a algo como "[a-stone]NP [that]CP [was]VP-Imperf. [in-the-middle-of-the-road]PP" não poderia em hipótese alguma exigir o título de mais fiel, já que ela passaria ao largo da alusão amarga que Drummond faz a sua própria trajetória poética empregando uma forma poética tradicional, o soneto em versos alexandrinos, e um verbo existencial abonado pela norma-padrão, "havia".


Sendo assim, a tradução literal é aquela mais transparente em relação a alguns aspectos do texto. Alguns; não todos. Uma tradução rítmica de um poema antigo é mais transparente em relação à leitura que o tradutor fez do ritmo daquele texto, coisa que uma tradução literal simplesmente não nos informa. Do mesmo modo, se uma tradução inglesa decidisse trocar a referência à pedra no meio do caminho por outra, do universo da literatura inglesa, que também tenha envolvido uma polêmica gramatical no passado, ela estará fazendo uma leitura transparente desse aspecto importante do texto, mais do que, novamente, uma tradução literal. Não seria razoável falar de infidelidade nessa situação. Como infidelidade, se parte considerável do texto poético é, justamente, sua forma? O poema de Drummond, sem a forma soneto, perderia completamente suas garras mais afiadas e já não se diferenciar mais da poesia que o próprio Drummond praticou décadas atrás no auge de sua empolgação modernista.


Como sempre, é bom ter os pés no chão na hora de responder por que traduções literais em sala de aula. O argumento de que são mais fiéis só é possível se olharmos para o texto poético de forma ingênua, como se ele fosse aquele biscoito chinês da comparação feita anteriormente. O que podemos dizer a seu respeito não é que são mais fiéis, mas sim que são mais transparentes em relação à maneira como lemos certos aspectos de um texto, particularmente importantes quando estamos aprendendo um novo idioma, isto é, o aluno precisa sair da aula com um bom domínio do léxico, da morfologia e da sintaxe. Justamente por isso as traduções literais são valiosas: pois elas nos dão instrumentos para averiguar o domínio que o aluno tem. O raciocínio, formalizado, diz:


1) Tradução literal é a que explicita do modo mais claro possível qual a interpretação que se faz de aspectos gramaticais de um texto, por exemplo morfológicos e sintáticos;

2) O professor precisa entender qual a interpretação que o aluno fez de aspectos gramaticais de um texto, por exemplo morfológicos e sintáticos;

3) Logo, a tradução literal é importante para o professor.

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