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Nolite te bastardes carborundorum.

Latim. Quando dizemos que estamos aprendendo latim, a primeira reação das pessoas é de reverência. Parecemos estar aprendendo alguma coisa muito importante, não obstante exótica. Mais do que isso, o latim parece ser um penduricalho chique, um passaporte com fiorituras que leva seu portador aos páramos da cultura ocidental. Longe de mim dizer que seja uma mentira, até porque Brás Cubas já deu cabo ao assunto ao embolsar "três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as despesas da conversação".


O que eu gosto mesmo é de ver essa pompa toda excretar significados simplórios a ponto de decepcionantes, à maneira de irmos no supermercado e encontrarmos marcas com nomes em latim em cada gôndola. Minha preferida é a de fósforos, que toma de empréstimo uma das passagens centrais da teologia judaico-cristã e estampa em letras garrafais: fiat lux. Diversos outros exemplos poderiam ser dados, por exemplo o latim maluco dos feitiços de Harry Potter, as frases misteriosas ambientando O Nome da Rosa, ou, exemplo recente e até então meu favorito, a frase a certa altura de O Conto da Aia, "Nolite te bastardes carborundorum".



Até quem só assistiu o seriado televisivo sabe que em linhas gerais o livro da autora canadense narra um relativamente-plausível futuro distópico no qual os Estados Unidos se tornaram uma ditadura teocrática. Ali, as casa-grandes capitaneadas por comandantes escravizam mulheres, as chamadas aias, para fins exclusivamente reprodutivos. A certa altura do livro a personagem principal, June, ou, àquele tempo, Offred, descobre uma frase em latim escrita no rodapé do quartinho em que mora: "Eu me ajoelhei para examinar o piso do armário e lá estava, escrito em letras minúsculas, bem recentes, parecia, riscadas com um alfinete ou talvez apenas uma unha, no canto onde caía a sombra mais escura: Nolite te bastardes carborundorum." Ao perguntar para seu comandante o que ela significa, ele, numa pose indiferente e altiva, se levanta e percorre as estantes repletas de livros de seu escritório. Arranca uma gramática latina surrada que usou em sua época de colégio e diz se tratar de uma simples brincadeira cujo sentido era algo como "não deixe que os bastardos esmaguem você", "don't let the bastards grind you down".


A afiadíssima farpa irônica que a Atwood incute aqui, porém, é que a frase meio que não existe. Tcharã. "Nolite" é imperativo plural do verbo "nolo", significando, de fato, algo como "não queiram vocês". O "te" tem a mesma função que o pronome oblíquo reto em português: "te", complemento verbal de "nolite". "Não queiram [alguma coisa] a você". "Bastardes", que em tese deveria ser o sujeito da frase, começa a denunciar o tom jocoso: não há a palavra "bastardes" em latim nem tampouco uma que pertença à terceira declinação; há, no latim tardio, o adjetivo "bastardus", de primeiro tipo, com o mesmo significado de "spurius" no latim clássico. O mesmo acontece com "carborundorum", uma espécie de composto que partiria de "carbo", carvão, mas que não existe propriamente no latim clássico e nem faz sentido pela terminação "-orum", de genitivo plural da segunda declinação.


A frase que Atwood usa como base é "illegitimi (ou illegitimis) non carborundum". Ao que tudo indica, ela teria sido cunhada pelos ingleses durante a Segunda Guerra como uma espécie de piada, o chamado dog latin. "Illegitimi", por exemplo, pode ser genitivo singular, nominativo plural ou vocativo de "ilegítimo", ao passo que "illegitimis" seria dativo ou ablativo plural da mesma palavra. O problema é que não tem lá muita relação com "carborundum", nome científico para o carbeto de silício e que, no contexto da frase, seria ou acusativo singular ou então uma espécie de gerundivo de um verbo fictício. Uma tradução da frase, com muita boa vontade envolvida, optaria por "illegitimis" dativo e chegaria a algo como "não se deve ser reduzido a cinzas pelos ilegítimos".


Como dito, o próprio comandante confessa que a frase era apenas uma brincadeira. Na tradução de Ana Deiró para a edição da Rocco, "– Isto não é latim de verdade – diz ele. – É apenas uma piada." Um pouco depois, na mesma cena, ele mostra uma ilustração retratando um episódio nefasto de quando os romanos raptaram a seu bel prazer mulheres sabinas que estavam de visita na cidade para uma festividade local. A sequência "pim pis pit, pimus pistis pants" imita a conjugação de um verbo em latim - mas, claro, não só o verbo não existe, como a última forma é apenas um trocadilho grosseiro com "calças".


– É meio difícil de explicar porque é engraçado a menos que você saiba latim – diz ele. – Costumávamos escrever todo tipo de coisas como essa, não sei de onde as tirávamos, talvez aprendêssemos com meninos mais velhos. – Esquecendo-se de mim e de si mesmo, ele está virando as páginas. – Veja isso – diz. A ilustração é chamada de As mulheres sabinas, e na margem está escrito: pim pis pit, pimus pistis pants. – Havia outra aqui – diz. – Cim, cis, cit...

A frase, com toda sua falta de sentido, com todo seu esforço ridículo de fazer-se passar por latim, acaba revelando muito sobre a tacanhez intelectual do comandante, que, embora a trate como uma brincadeira, ainda assim ousa dar uma tradução de algo que sequer é latim. Ao mesmo tempo, a falta de sentido, ou, melhor dizendo, a pretensão em fazer sentido numa língua que aqueles adolescentes não dominavam, é completamente ressignificada quando June a lê em seu quarto. O que até então não tinha sentido algum, por ser elaborado por estudantes que não entendiam muita coisa de latim, e para os quais a liberdade e a resistência eram palavras vazias, jovens da elite como eram, se torna, nas mãos das aias, um instrumento de resistência e passa a representar, agora, a vontade de construir um futuro para bem longe daquela realidade.

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