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Latim com os pés no chão.

Estudantes de latim, criaturas idealizadas que saltam das páginas de um romance de formação direto para a vida real. Podemos imaginá-los como eruditos solteirões que conhecem as raízes de virtualmente todos os substantivos em português. Basta um convite para o chá da tarde e uma generosa fatia de bolo para que nosso convidado retribua com uma longa explicação a respeito dos metaplasmos no latim vulgar.



É possível retratá-los também como cientistas hiperespecializados que substituíram jornais sensacionalistas por papiros do século IX ou como eremitas desajeitados que desaprenderam por inteiro habilidades sociais simples, do tipo manter um sorriso enquanto diz Oi! ou perceber um flerte durante uma festa do departamento. Ou, quem sabe, como indivíduos de um sentimento religioso profundamente arraigado, arraigado, digamos, a ponto de dar nos primeiros séculos de nossa era. Latinistas como cristãos que recheiam sua homilia com pílulas de análise morfológica, ou que declinam um substantivo na esperança de encontrar a Revelação entre um caso e outro.


Na condição de membro representante da Sociedade Interplanetária de Latinistas, não me levem a mal: temos um pouco disso sim. Nas melhores cabeças, um pouco menos. Nas piores, um pouco mais, ou no mínimo uma combinação indigesta em que a pessoa trava contato cotidianamente com poemas homoeróticos antigos apenas para, no fim do dia, feito o epílogo de uma farsa, esbravejar contra o casamento homoafetivo.


 

O latim padece de um tipo clínico de idealização muito encontrada em objetos de estudo distantes mas vagamente familiares. Seus hospedeiros são tanto aqueles que enxergam a língua de fora das agruras da gramática, quanto quem precisa passar por esse suplício.


Se pararmos pra pensar bem, é no mínimo exótico que alguém se interesse por estudar uma língua antiga mesmo diante de um universo inteiro de coisas mais rentáveis, por exemplo aperfeiçoar uma receita de bolo molhado ou estudar para outro vestibular que seja -- qualquer outro. Mas, apesar dessa aura mística, aprender latim em si é aprender uma língua como outra qualquer, com o diferencial de que nosso treino consiste basicamente em manusear velharia usando um tipo específico de pincel com cerdas muito diferentes do que se vê por aí. Nas palavras de Paulo Sérgio de Vasconcellos, "o latim é uma língua como qualquer outra, que teve, porém, a grande sorte de ser veículo cultural do maior império do Ocidente" (2013, p. 13).


Enquanto o latim atazanou o quanto pôde a cabeça de crianças e adolescentes em meados do século passado, muitas justificativas foram elaboradas para explicar aos pais por que a língua era importante. Considerando que o latim acabou sendo chutado pra escanteio, então pelo jeito não deu muito certo, mas, verdade seja dita, o pessoal bem que se esforçou. Muitos venderam a ideia de que, aprendendo latim, aprendemos também português. Alguns preferiram dizer que o latim melhora nosso raciocínio lógico, enquanto outros disseram que o estudante de latim tem fila preferencial na hora de aprender uma outra língua neolatina. Já houve até quem dissesse que ele combate o envelhecimento cerebral e que nos permite conhecer gente nova (cf. Almeida 2011). Do alto de minha torre de marfim consigo avistar muitos conservadores saltitantes esperando que o latim molde seu imaginário com narrativas viris, enquanto outros vão direto ao ponto: o latim nos liberta enquanto seres humanos pelo simples fato de que enriquece menos o nosso bolso e mais aquele baú que todos temos guardado em algum canto da casa -- cultura.


Que fique claro. Sou da opinião que muito disso realmente vem no pacote. É difícil não sair de uma aula de latim com pelo menos um punhado de explicações que te ajudem a entender como nosso próprio idioma funciona, ou com um punhado de ferramentas que te farão avançar de forma mais prática e lúcida em uma língua como o italiano ou o francês. Mesmo a promessa de que o latim é capaz de prevenir a demência mental possui algum tipo de embasamento na literatura científica: na verdade, não é o aprendizado do latim em específico, mas sim o de qualquer outro idioma estrangeiro que pode prevenir de forma moderada o início dos sintomas (cf. Anderson, Hawrylewicz, Grundy, 2020). Os argumentos conservadores, a seu turno, contanto que não pequem por abstração demais com esse papo todo de formação do imaginário, que afinal de contas só faz sentido na exata medida em que magicamente nos esquecemos de toda sorte de obscenidade que os antigos escreveram, sem dúvidas possuem lá sua razão: o latim é uma porta de entrada importante para muito do que se produziu em nossa cultura ao longo dos séculos. De posse do latim, você consegue estudar a Eneida de Virgílio, a Suma Teológica de Tomás de Aquino ou a Utopia de Thomas More.


(Talvez a única promessa esquisita no meio dessa história toda seja a de que o latim te leva a conhecer gente nova. Se por gente nova a pessoa estiver pensando em demônios, fantasmas, seminaristas carolas saídos diretamente da Idade Média ou, pior, outros estudantes que realmente queiram estudar latim também!, então sim, o latim te leva a conhecer essa turminha do balacobaco.)


Seja como for, motivação para os estudos não precisa ser algo lá muito elaborado. Há quem invista anos estudando com o sonho de um dia passar horas na fila de algum brinquedo da Disney. Em tal cenário, estudar para um dia poder ler as cartas de Sêneca não parece tão absurdo assim. A motivação para os estudos precisa ser cultivada de modo a que não se torne um empecilho ou um fardo. Você precisa estar motivado hoje, depois de sua dose de serotonina com vídeos de gatinhos, mas também precisa estar motivado amanhã, semana que vem e todos os outros meses do ano. Pode ser também que a motivação de hoje mude no futuro, o que é perfeitamente plausível depois que você descobre que publicar uma edição crítica definitiva das elegias de Propércio não é tão simples como pareceu em sonho.


 

Essas são as motivações do aluno, às quais, é claro, só ele pode responder. Para o professor, e em especial para alguém que está humildemente vendendo seus cursos, a situação é bem mais delicada. Não faz muito sentido seduzir os incautos a que estudem latim sob a promessa de saírem feito um Rui Barbosa discursando aos moços. Como diz Leni Ribeiro, "para saber português é preciso nada mais do que estudar português, e basta" (2016, p. 15). Se por um lado é evidente que o contato com o latim nos leva a ter mais consciência sobre nosso próprio idioma, por outro, ainda com Leni Ribeiro, "ao encarar o curso de latim como necessário apenas por seu caráter histórico ou etimológico, roubamos do latim o que ele tem de mais essencial e o que seu estudo pode de fato oferecer de importante e valioso aos estudantes de Letras no Brasil atual: a cultura e a literatura de que a língua latina foi veículo por vinte séculos" (2016, p. 12).


Para ser bem honesto, é a única justificativa verdadeiramente plausível, razoável e responsável que um professor pode dar: aprenda latim para aprender latim, no que a língua tem de interessante e fascinante por si só, e para ter acesso a tudo o que foi escrito no idioma, desde as epopeias romanas até documentos de doação de terra redigidos em plena Idade Média. Nas palavras de Patrícia Prata e Fábio Fortes, "o latim e sua cultura devem, de fato, trazer à formação dos estudantes a contribuição que lhe compete: a porta de acesso à cultura antiga e a consciência histórica da linguagem humana" (2015, p. 30). São os mesmos autores que definem, de forma lapidar, o latim como uma "língua estrangeira clássica" (2015, p. 26).


Isso nos traz uma série de cuidados, por exemplo o de não abordar uma língua antiga com olhos de quem só sabe pensar dentro da caixinha, ou, ainda, aplicar tão somente a maleta da análise gramatical tradicional para lidar com um idioma que requer "rigor teórico e acesso aos textos" (Prata e Fortes, 2015, p. 28-29). Toda atenção é pouca para este último aspecto. Como vender um curso de latim com promessas claramente exageradas de fluência em leitura, se os textos que o aluno encontrará em sua trajetória são difíceis, cabeludos, escritos numa cultura que não está inteiramente acessível a nós? A língua latina, em si, não é um bicho de sete cabeças. Ela tem lá seus espinhos, por exemplo o sistema de casos morfológicos, a colocação mais solta das palavras na frase ou um quadro verbinominal muito mais potente. Mas, dada a sua proximidade com o português, e considerando que uma língua é tanto mais difícil quanto mais se afaste da nossa língua materna, então -- e eu falo disso com toda a segurança de quem dá aula de latim há anos -- a aventura não é das mais atribuladas. Se nosso objetivo fosse aprender um latim básico, um que nos ajudasse a entender um vídeo sobre como fazer macarrão (o que realmente já fizeram) ou a pedir informação sobre onde fica a Via Appia, então o latim não pareceria uma língua tão misteriosa e angelical assim.


Certa feita Alexandre Hasegawa, professor de latim da USP e referência em se tratando de poetas como Virgílio ou Horácio, traçou um paralelo interessante sobre o assunto (aos 22:25). Imagine que um estrangeiro aprenda direitinho português por quatro anos e depois pegue Camões para ler. Dificilmente ele lerá aquilo com muita facilidade, assim como nós, falantes de português desde as fraldas, também não nos saímos muito bem nessa empreitada. Sem uma edição recheada de notas ao lado, e às vezes até com paráfrases em prosa que expliquem o sentido de uma estrofe particularmente intrincada, não conseguimos entender o que está se passando.


Com latim é mais ou menos por aí. Se nosso propósito ao aprender latim fosse vender bugigangas para o exército romano na província, poderíamos dar cabo no assunto sem nem mesmo saber o que seja um pretérito mais-que-perfeito. Como, porém, buscamos ler textos que foram escritos muitas vezes com um grau acentuado de complexidade, por exemplo um poema pastoril ricamente alusivo ou uma sátira cheia de gírias de milênios atrás, e como precisamos defender uma leitura de maneira muito minuciosa e embasada, então é claro que o aprendizado do latim se torna um tanto mais difícil. E não só isso: a promessa de fluência vai toda pelo cano, pois não seria nem um pouco razoável que eu, do alto de um vídeo de oito minutos com música de fundo retumbante e depoimentos grandiloquentes de alunos lobotomizados, tentasse te vender a promessa de que com dois anos você sairá daqui lendo as silvas de Estácio como se fossem um Reader's Digest.


Latim, portanto, com os pés no chão. Consigo te prometer que, se você fizer o curso direitinho, terá um traquejo bom ao lidar com os textos e aprenderá de forma progressiva, embasada e ponderada os tópicos essenciais da gramática da língua. Ou seja, vamos equipar juntos sua caixa de ferramentas para que saia por aí apto a enfrentar esses colossos da cultura antiga. Não será uma batalha fácil, assim como esmurrar por meses a fio um saco de pancadas não te garante que a coisa vai ser fácil no ringue. Até lá, o melhor que você faz é pôr as barbas de molho e ser um pouco mais velhaco antes de clicar no reluzente botão "Comprar". Desconfie de quem não consegue vender suas aulas sem antes estender um pano de fundo caótico e apocalíptico no qual nenhum outro professor de latim no país inteiro sabe verdadeiramente latim, por maior que seja seu currículo, por mais extensa que seja sua carreira. Se o método que te vendem parece milagroso demais, pode ser só a roupinha enfeitada e colorida que colocaram sobre a mesma abordagem de sempre.


 

Referências

  • Almeida, Shirlei Patrícia Silva Neves. As representações da importância e da utilidade do latim presentes em prefácios de obras metodológicas contemporâneas. Trabalho apresentado no Seminário Estudantil de Pesquisa em Letras. Salvador: UFBA/SEPESQ, 2011.

  • Anderson; Hawrylewicz; Grundy. "Does bilingualism protect against dementia? A meta-analysis", em Psychon Bull Rev. 2020 Oct;27(5):952-965, doi: 10.3758/s13423-020-01736-5.

  • Prata, Patrícia; Fortes, Fábio. "A sobrevivência do Latim", em O Latim Hoje, ed. Mercado das Letras, 2015.

  • Ribeiro, Leni. Latine Loqui, vol. 1, ed. UFES, 2016.

  • Vasconcellos, Paulo Sérgio de. Sintaxe do período subordinado latino, ed. Fap-Unifesp, 2013.

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